Corram por vocês mais vezes!

Tenho a impressão de que nasci na época errada. Não sei. Não consigo assimilar certos valores. Tenho me questionado loucamente ultimamente. E, às vezes, me sinto caminhar na contra-mão de uma sociedade freneticamente louca – "louca" é uma maneira fofa de me referir a quem vive de maneira diferente daquela que julgo – como humana e, por isso, posso estar errada – ser a maneira mais leve.

Infelizmente, tenho questionado até o que é ligado à corrida – e, aqui, começo a escrever sobre pessoas que não são próximas, por que aprendi a escolher bem os meus, e, obviamente, sobre grandes marcas. A propósito, acredito que grande parte do que tenho questionado seja reflexo das ações que somos obrigados a vivenciar.

Eu comecei a correr por que precisava de uma válvula de escape. Eu não nasci Bolt e bato nos peitos para dizer que a minha primeira e única "selfie de relógio" – nos tempos atuais, prova incontestável de orgulho e isso não quer dizer que eu concorde com isso – mostrava um treino de 3k a pace 8' – e se você fez cara de nojinho para esse pace, amigo, nem perca seu tempo lendo o restante. Um ano depois, a prova que deveria ser a minha primeira Meia acabou sendo a minha terceira Meia e todas tiveram supervisão do meu treinador da época. Foi nos treinos para as Meias que comecei a entender direito o que significa pace e o quanto isso era valorizado. Coitada, me apeguei a isso e só participava de provas querendo diminuir o pace. Prova boa precisava significar Recorde Pessoal e se não rolasse.. Eu precisaria treinar mais, por que estava pouco.

Mudei de assessoria, meu treinamento mudou totalmente e consegui, até com certa facilidade, chegar ao pace que, antigamente, considerava inatingível. Minha assessoria faz uma premiação a cada início de um novo ano e, neste ano, ganhei o troféu na categoria planilha à distância – minha assessoria é de Curitiba. Sempre que olho para esse troféu lembro o quanto dei duro para conquistar tudo até aqui.

Mas a corrida me cansou. Não tinha fôlego, por que não queria nem encontrá-lo. Me perdi, mas me mantive ativa na natação – um amor antigo! – e nas aulas de Muay Thai – que me fazem mais forte. Eu sentia uma falta absurda da corrida, mas lembrava do quanto deixava com que ela me pressionasse. Do quanto me deixei influenciar por quem escreve pace em cada publicação – sou humana. Cansei de querer RP e senti saudade de correr por mim e só por mim, afinal, quando rola RP, o mais legal é falar aos quatro cantos sobre – e não que isso não seja incrível, mas parece que se esquece que o dono daquele tempo é si próprio e ponto. Eu nunca conquistei um RP só pra mim. Eu falava sobre isso, postava sobre isso.. Até o dia em que eu cansei. Se você não é atleta, é difícil suportar isso ad eternum. Você envelhece, infelizmente pode se lesionar, a vida muda.. E se você corre buscando somente rapidez, você passa a quebrar a cara e, facilmente, acaba deixando de correr!

Cansei dessa coisa besta de "preciso ser mais rápida" para ser completa. E senti um vazio. Um vazio difícil de ser preenchido.

Eu precisei do caos aqui dentro para valorizar o que realmente vale a pena em cada passada. Participei de uma prova em dupla com o Gui no meio disso tudo e ficamos em 6º geral – merda! Isso me lembrou de tudo aquilo que eu queria esquecer.

Move for Cancer. Uma das corridas com as causas mais lindas. Fui movimentadora e acabei, mais uma vez, diminuindo o meu tempo nos 5k, mas esse RP eu guardei pra mim e senti que tinha conseguido fazer por mim. E só pra mim.

Nas vésperas da Maratona do Rio, muitas coisas incríveis e péssimas aconteceram. Um turbilhão de pensamentos me inundou e do meu lado: um kit para a Family Run. Aquilo, definitivamente, era pouco pra mim. Não daria pra eu encontrar a plenitude que só a corrida proporciona em 6k. Vamos lá: eu admiro muito quem correu essa prova e, inclusive, me sinto na obrigação de me desculpar pelos amigos que só desejaram boa prova para os participantes dos 21k e dos 42k. Vocês são igualmente incríveis! Mas eu.. Bem, eu já tinha completado 6 Meias e quando a gente se encontra numa prova de longa distância parece muito mais difícil participar de uma corrida "menor".

Eu decidi ir para os 21k, depois de conversar com o meu treinador, obviamente. Eu decidi me encontrar. Decidi ser inteira em tempos de metade. E foi uma das melhores decisões da minha vida. Achei incrível encontrar com uma galera na largada e de se surpreenderem de eu estar ali – sem ninguém saber, sem contar nada pra ninguém, sem falar sobre isso no Instagram e no blog.

Amigos, eu precisava da corrida que encontrei há mais de quatro anos. Eu precisava fazer por mim e só por mim. Tempo? Eu queria que essa corrida durasse mais de 12h! Como eu me sinto? De verdade e após ter vivido tudo o que realmente acredito!


Dani Germano1 Comment